Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

E AGORA PORTUGAL?

 

Há muito tempo que era um aperto previsível.

Tanto que há mais de um ano me sentei com os meus dois meninos para lhes explicar os cortes acentuados que iríamos fazer nas despesas familiares, antecipando o cenário hoje despido.

 

É tão "lógico" e sólido como isto; se desde o PREC (dos anos 70) o país consomia muito mais do que produz restavam duas alternativas; viver de um crédito suportado através de sucessivos empréstimos adicionais ou tornarmo-nos caloteiros recorrentes.

 

Apsar de tudo, a avestruz pôde continuar a enterrar a cabeça na areia enquanto os agentes financeiros internacionais não encontraram os nichos de enriquecimento do ataque a moedas comuns e do piranhar das dívidas soberanas.

 

A agravar as coisas, tivemos um governo emasculado e pouco atreito à imperiosidade de procurar consensos na altura do aperto, um vampirismos das fragilidades económicas que tornaram sucessivamente obsoletos os sucessivos PECs e uma posição hipócrita e predatória que pôs os interesses político-partidários à frente de um sentido de Estado que se exigia no combate a um problema comum.

 

Agora, o cenário volta a ser previsível, resta saber se a lentidão de leitura apertará ainda mais a corda no pescoço do "infractor".

 

Antes que os noticiários nos tragam nas próximas semanas a imposição de cortes de subsidios de férias e de natal e, mais uma vez, de salários. A redução de pensões e de deduções fiscais e um corte substancial nas despesas solidárias do Estado, eu vou apenas prosseguir o que faço há dois anos;

acabaram-se todas as despesas não-essenciais e estica-se ao limite o reaproveitamento e racionalização de recursos.

 

Mesmo assim, veremos se chegará governar-se o país como os nossos avós geriam as suas finanças domésticas; amealhando os vinténs e consumindo apenas o que se tem. 

 

A alternativa seria agravar ainda mais o abismo ou roubar o futuro aos nossos filhos.


publicado por António Mateus às 23:12
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Quarta-feira, 6 de Outubro de 2010

FALÊNCIA JORNO-POLITICA

 

A gravidade da actual crise reside mais nas exigências que coloca aos políticos e aos jornalistas do que à aritmética implicada.

 

Por um lado, há quase uma gração que somos governados por políticos mais preocupados em serem reeleitos e pensarem em sound-bites mediáticos do que em administrar o país para as gerações vindouras e geri-lo como o fariam, sensatamente, com o respectivo património familiar.

 

Por outro, os media são cada vez mais dominados por jornalistas sem mundo que alimentam o circo predatório em vez de funcionarem como um verdadeiro quarto poder; uma consciência social que deixasse a nú vazios de ideias e exigisse actos administrativos consequentes em vez de multiiplicar tempos de antena onde se massajam egos de entrevistados e entrevistadores.

 

E se não acreditam experimentem parar um bocadinho e fazer um pouco de aeróbica aos neurónios; imaginem que este país é a casa onde descalçam os sapatitos ao fim do dia e para cujo sustento se foram endividando, ao ponto de já mal suportarem as respectivas prestações.

 

O banco, como é lógico, começou a duvidar da saúde financeira de alguém que gasta em média mais 500 euros do que ganha por mês e apertou-te os calos. Aumentou os juros. Vai daí, o que fizeste? Informaste a prole que a partir daquele dia, as despesas não só iam ser cortadas ao limite do rendimento da família como, finalmente e de forma sensata, se passaria a gastar um pouco menos do que as receitas, para se poder reinvestir e precaver o futuro.

 

Juízo? Inteligência? Não. Claro que não. Se lermos e ouvirmos os media portugueses e os políticos por eles ecoados.

 

Depois de quase uma década a acompanhar como jornalista pessoas do calibre de Nelson Mandela e Desmond Tutu permitam-me ter uma latitude muito restrita para o que poderia ser tão facilmente este país mas não o é; por pura mediocridade e nepotismo.

 

Como é possível debater-se dias a fio se as medidas de contenção de Sócrates são ou não demasiado penosas quando o que elas são, na realidade, é obscenamente curtas e só reflectem, e mais uma vez, a principal preocupação dos nossos governantes, directores, etc; não perderem o poder.

 

Se o país consome muito mais do que o que produz e o crédito atingiu níveis insustentáveis só há uma coisa, corajosa, responsável a fazer; chamar os bois pelos nomes e reduzir o consumo ao que efectivamente se produz; seja isso o que for, mesmo que se passe fome;mesmo que se ande a pé, mesmo que se percam as vaidades.

 

Porque era isso certamente que fariam se fosse a casa, onde vivem os nossos filhos, e o futuro destes, que estivesse em jogo.

 

E não o é?

 

 


publicado por António Mateus às 23:25
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António Mateus

Escritor e jornalista. Nasceu em 1960 em Castelo Branco, filho de uma socióloga e de um Oficial de Cavalaria. Licenciado pela UTL e iniciou a sua actividade jornalística no jornal O Globo em 1982. Continuar a ler (...)

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