Os dois movimentos separatistas cabindenses reclamam a autoria do atentado sangrento que vitimou futebolistas togoleses em trânsito para o enclave.
E um deles, a FLEC-PM, avisa mesmo que haverá novos incidentes do género durante a Taça Africana das Nações de Futebol, iniciada domingo em Angola.
Rodrigues Mingas, auto-proclamado desta facção dissidente afirmou que o alvo dos seus homens nesta emboscada era a guarda militar angolana e não os futebolistas do Togo, por – nas suas palavras – Cabinda estar em guerra.
A mesma argumentação usada por um porta-voz da FLEC-FAC logo após a emboscada de sexta-feira. A diferença está em que o primeiro daquelas facções avisa que irá manter os ataques durante o CAN-2010, o Chefe de Estado Maior da FLEC-FAC anunciou a suspensão das hostilidades durante a prova.
Á gravidade da (irre)solução do problema de Cabinda há várias décadas, acresce cada vez mais a politiquice e as tricas de interesses entre os independentistas no exílio e os elementos armados no terreno.
Luanda insiste tratar-se de uma “questão doméstica” e de “soberania nacional” para rejeitar qualquer pressão ou legitimidade dos independentistas, mesmo quando os cabindenses pouco beneficiam da imensa riqueza natural das suas terras ancestrais.
Nada poderá justificar o derrame de sangue de inocentes – como foi o caso das vítimas togolesas – e daí a condenação generalizada da emboscada como um acto atroz, eventualmente mobilizador de uma caça global aos responsáveis das FLECs armadas.
O problema é de quem tem memória e consciência...porque barbaridades deste calibre ou bem pior já foram protagonizadas por quase todos os países e militâncias, que agora (e bem) chamam terroristas a quem arquivou o respeito pelos direitos humanos, em nome do desespero, de interesses financeiros ou da conquista do poder.
É um dos países do mundo que melhor conheço como jornalista, estrangeiro e como "irmão" apaixonado de África.
E por isso mesmo, ao contrário de tantos "especialistas africanos" que vejo, escuto e leio diriamente nos media portugueses, assumo a imensidão da minha ignorância sobre fenómenos como o recente ataque mortal a um autocarro de futebolistas do Togo, atribuído à FLEC.
Desde os tempos coloniais que se contam meias-verdades e se reprime o mensageiro quando estão em causa os interesses financeiros colossais de Cabinda, sepultando assim ainda mais a hipótese de uma solução para o problema de raiz.
É verdade que nada poderá justificar um golpe publicitário sangrento mas como entender também a insanidade de uma selecção de futebol viajar de autocarro em zonas quentes como aquela?
Lembro-me de nos anos 90 ter ido como jornalista, da África do Sul a Cabo Ledo, fazer uma reportagem com responsáveis da então “Executive Outcomes”. A empresa acabara de ser contratada pela liderança militar do MPLA para reagrupar as FAPLA após o regresso à guerra pela UNITA.
Tratava-se de contratar para ajuda ao MPLA homens que conheciam por dentro a UNITA e tinham estado na frente de guerra contra Luanda, integrados nos batalhões 32 e 33, forças de elite sul-africanas.
Estive naquela base com Eeben Barlow, do lado da EO, e os generais João de Matos e o António Faceira, a testemunhar o arranque do contrato.
Nesse mesmo dia fiz um despacho para a Lusa e para RTP. No dia a seguir, o então porta-voz da Embaixada de Angola em Lisboa protestou a notícia como “falsa” e exigiu desculpas.
Fiquei perplexo!
Perguntei aos meus botões se ninguém avisara a Embaixada de Angola que aquele acordo já estava em vigor e activo há vários meses, ou se a opção era de calar o mensageiro.
Depois lembrei-me que somos todos luso-falantes. Com os mesmos méritos e defeitos;
Se aqui em Portugal se deve comer e calar e se privilegia o lambebotismo em vez do enriquecimento com outros olhares, porque haveria de ser diferente em Angola?