É um dos países do mundo que melhor conheço como jornalista, estrangeiro e como "irmão" apaixonado de África.
E por isso mesmo, ao contrário de tantos "especialistas africanos" que vejo, escuto e leio diriamente nos media portugueses, assumo a imensidão da minha ignorância sobre fenómenos como o recente ataque mortal a um autocarro de futebolistas do Togo, atribuído à FLEC.
Desde os tempos coloniais que se contam meias-verdades e se reprime o mensageiro quando estão em causa os interesses financeiros colossais de Cabinda, sepultando assim ainda mais a hipótese de uma solução para o problema de raiz.
É verdade que nada poderá justificar um golpe publicitário sangrento mas como entender também a insanidade de uma selecção de futebol viajar de autocarro em zonas quentes como aquela?
Lembro-me de nos anos 90 ter ido como jornalista, da África do Sul a Cabo Ledo, fazer uma reportagem com responsáveis da então “Executive Outcomes”. A empresa acabara de ser contratada pela liderança militar do MPLA para reagrupar as FAPLA após o regresso à guerra pela UNITA.
Tratava-se de contratar para ajuda ao MPLA homens que conheciam por dentro a UNITA e tinham estado na frente de guerra contra Luanda, integrados nos batalhões 32 e 33, forças de elite sul-africanas.
Estive naquela base com Eeben Barlow, do lado da EO, e os generais João de Matos e o António Faceira, a testemunhar o arranque do contrato.
Nesse mesmo dia fiz um despacho para a Lusa e para RTP. No dia a seguir, o então porta-voz da Embaixada de Angola em Lisboa protestou a notícia como “falsa” e exigiu desculpas.
Fiquei perplexo!
Perguntei aos meus botões se ninguém avisara a Embaixada de Angola que aquele acordo já estava em vigor e activo há vários meses, ou se a opção era de calar o mensageiro.
Depois lembrei-me que somos todos luso-falantes. Com os mesmos méritos e defeitos;
Se aqui em Portugal se deve comer e calar e se privilegia o lambebotismo em vez do enriquecimento com outros olhares, porque haveria de ser diferente em Angola?