
Maningue se jiboiava no corcovo da mangueira, como se o tronco, engravidado no chuveiro de final de tarde, lhe subtraísse as quenturas do sol braseirento.
Maningue os via, isso mesmo, maningue apressados. Correndo afogueados, em contramão aos saberes antigos, que ditavam sossego do corpo na hora da queima e o rasgar dos sentidos no descanso do Sol.
Mulungos se rosavam de pele, naquele corre-corre, passando uns pelos outros sem bons-dias, olhares divorciados da alma, como se o corpo e o sentir fossem casais desavindos, desanzolados no existir.
Maningue fechava os olhos e sentia o abraço, curvado do tronco. Como se ele e o Mundo fossem extensões de um mesmo corpo. Afinal, desde menino que aquele era seu colinho, herdado da ausência dos pais, subtraídos pela doença.
Moreno de pele, olhos e cabelo, se perguntava às vezes se Deus lhe armadilhara a vida, a começar pela côr pintada, num Mundo onde brancura significa pureza, valor, e o escurar sinonima a míngua de luz. O vazio de saber.
Nessas alturas se virava no para trás do saber deixado em tradição oral e se atrasava no passo. Repousando no colinho da mangueira fechava os olhos, sorvia o afago da brisa morna e dos cheiros por ela transportados e se descobria iluminado, de coração varandado no frinchar dos olhos.
Maningue sentia a pele arrepiar-se naquela benção de harmonia. Porque assim o escolhia.
Porque no saber antigo, somado de muitos existires, somos o que semeamos. E de nós nos perdemos, sempre que na pressa de nos ultrapassarmos, nos esquecemos de parar e regar, a flor da mangueira em que nos saciamos.