Quarta-feira, 6 de Outubro de 2010

FALÊNCIA JORNO-POLITICA

 

A gravidade da actual crise reside mais nas exigências que coloca aos políticos e aos jornalistas do que à aritmética implicada.

 

Por um lado, há quase uma gração que somos governados por políticos mais preocupados em serem reeleitos e pensarem em sound-bites mediáticos do que em administrar o país para as gerações vindouras e geri-lo como o fariam, sensatamente, com o respectivo património familiar.

 

Por outro, os media são cada vez mais dominados por jornalistas sem mundo que alimentam o circo predatório em vez de funcionarem como um verdadeiro quarto poder; uma consciência social que deixasse a nú vazios de ideias e exigisse actos administrativos consequentes em vez de multiiplicar tempos de antena onde se massajam egos de entrevistados e entrevistadores.

 

E se não acreditam experimentem parar um bocadinho e fazer um pouco de aeróbica aos neurónios; imaginem que este país é a casa onde descalçam os sapatitos ao fim do dia e para cujo sustento se foram endividando, ao ponto de já mal suportarem as respectivas prestações.

 

O banco, como é lógico, começou a duvidar da saúde financeira de alguém que gasta em média mais 500 euros do que ganha por mês e apertou-te os calos. Aumentou os juros. Vai daí, o que fizeste? Informaste a prole que a partir daquele dia, as despesas não só iam ser cortadas ao limite do rendimento da família como, finalmente e de forma sensata, se passaria a gastar um pouco menos do que as receitas, para se poder reinvestir e precaver o futuro.

 

Juízo? Inteligência? Não. Claro que não. Se lermos e ouvirmos os media portugueses e os políticos por eles ecoados.

 

Depois de quase uma década a acompanhar como jornalista pessoas do calibre de Nelson Mandela e Desmond Tutu permitam-me ter uma latitude muito restrita para o que poderia ser tão facilmente este país mas não o é; por pura mediocridade e nepotismo.

 

Como é possível debater-se dias a fio se as medidas de contenção de Sócrates são ou não demasiado penosas quando o que elas são, na realidade, é obscenamente curtas e só reflectem, e mais uma vez, a principal preocupação dos nossos governantes, directores, etc; não perderem o poder.

 

Se o país consome muito mais do que o que produz e o crédito atingiu níveis insustentáveis só há uma coisa, corajosa, responsável a fazer; chamar os bois pelos nomes e reduzir o consumo ao que efectivamente se produz; seja isso o que for, mesmo que se passe fome;mesmo que se ande a pé, mesmo que se percam as vaidades.

 

Porque era isso certamente que fariam se fosse a casa, onde vivem os nossos filhos, e o futuro destes, que estivesse em jogo.

 

E não o é?

 

 


publicado por António Mateus às 23:25
link do post | comentar | favorito

TRANSLATE THIS BLOG TO ANY LANGUAGE

António Mateus

Escritor e jornalista. Nasceu em 1960 em Castelo Branco, filho de uma socióloga e de um Oficial de Cavalaria. Licenciado pela UTL e iniciou a sua actividade jornalística no jornal O Globo em 1982. Continuar a ler (...)

Os meus livros

Selva Urbana, edições Colibri. "Selva Urbana – ponte entre olhares e sensibilidades de dois mundos, duas culturas, dois continentes, situações humanas comuns – é uma sequência de retratos publicados em colunas semanais num jornal diário de cariz económico, Jornal de Negócios (...) Comprar

Homens vestidos de peles diferentes, editora Ulmeiro. Comprar.

pesquisar

 

links

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Julho 2013

Maio 2013

Março 2013

Outubro 2012

Junho 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

tags

todas as tags

subscrever feeds